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27 de setembro de 2008

Meu picolé minissaia


Saudade. Pra mim, não há palavra alguma no dicionário que expresse um sentimento com tanta veemência. Saudade não é só falta, não é precisar e nem só querer de volta. É só saudade. E isso é tudo. Tudo que está entalado na garganta, preso no choro, marcado no pensamento.
A saudade pode ter quilômetros de distância ou, muitas vezes, estar separada apenas por um lençol. Ou quatro paredes. A saudade dói sem ser doença, machuca sem ter armas.

Saudade só é boa quando está no seu fim. Saudade é igual fome. É uma das melhores coisas para se matar. Saudade do picolé minissaia, da coleção vaga-lume, da bota de chuva, do cheiro da lancheira da escola, da maçã raspadinha. Saudade.
Do passado mais antigo. Ou de ontem à noite.
Do que você está com saudade?
Pode vir agora. Pode vir de longe. Pode morar na sua rua. Porque tudo no mundo lembra a saudade. O que provoca a sua saudade?
Saudade tem cena. Aquela quando você acena de longe e, num segundo, os olhos se enchem de lágrimas.
Saudade tem música. E não precisa ser triste.
E quase sempre tem cheiro. Aquele que fica no travesseiro e faz lembrar. Cheiro de loção pós-barba, bolo de chuva.
Saudade tem sempre um nome. Ou não.
De quem você está com saudade agora?

Quem tem saudade, lembra.
Tem sempre pra quem escrever. Mesmo que esse alguém não possa mais ler.
A saudade quase sempre mora pra lá das nuvens. E nem avião pode alcançar.
Quando você diz que sente saudade, espera ouvir um eu também.

Tem saudade que não passa. Mesmo que os dias passem depressa.
Tem saudade que dá pra comprar o fim. Um voucher, um crédito de celular.
Bom mesmo é aquela saudade que se mata de graça. Um abraço, um pedacinho do seu picolé, um eu também.

Adoro contar saudade no relógio até ela acabar. É igual ansiedade de criança antes de abrir o seu presente. É como esperar o final de um livro.
Saudade tem recordação, baú, diário. Tem pétalas de rosa espremidas no meio de um livro. Tem foto no fundo da gaveta. Tem um casaco de ombreira e um souvenir daquela última viagem na estante. Tem um restinho de bebida na garrafa. Tem dejavu.

O bom da saudade é correr pra encontrar. É dar um abraço de urso. É contar os dias.
Porque quem sente saudade, tem o privilégio de sentir o seu fim. Algum dia, em algum lugar.

Miréille Almeida louca para dar fim a todas as saudades.

31 de agosto de 2008

Um dia eu ainda te mato


Sem querer e você se tornou meu combustível. Mal se apresentou e já me fez sentir uma vontade insaciável. Você não pediu licença, e eu te deixei entrar. Gosto desse teu jeito invasor de chegar.


Você tem poder sobre mim, e sabe bem disso. Usa-o quando eu menos espero e quando eu mais preciso. Você suga minhas energias. E eu ainda faço tudo pra te saciar. Acordo pensando em ti, todos os dias. E só durmo bem se você está longe dos meus pensamentos.


Você não dá desculpas pra aparecer e, se desse, eu aceitaria todas. Você me ensinou a precisar de você como um bêbado precisa da sua cachaça. Você me viciou.


Queria estar farta de você. Mas cada vez te preciso mais. Quando você vai embora, por um momento, parece que nunca mais vou querer te ver. Nunca mais. É, mas isso passa. E bem rápido. Comercial de margarina, creme dental, padaria da esquina, tudo me lembra você.


Quem você pensa que é pra me invadir e não pedir licença? Pra me fazer lembrar de ti quando eu quero é esquecer? Agora estou sentindo você. Tá me dando um vazio sem tamanho. Você me deixa zonza, até me faz tremer. Que vontade de te esquecer. Não me procure mais.


Já que tudo acaba em pizza, chegou o momento de te matar dentro de mim antes que você me mate. E vai ser agora:


- Alô?
- Por favor, eu quero pedir uma pizza bem apimentada e com bordas especiais.
- Em vinte minutos estaremos enviando seu pedido. (gerúndio, tinha que ser)


Contagem regressiva. Você vai morrer. E, enfim, vou te matar dentro de mim, Fome.


Miréille Almeida sempre faminta.

25 de maio de 2008

Eu quero um final clichê



Nos afastamos em silêncio. Nenhum dos dois disse uma palavra. Eu, porque qualquer palavra que viesse à mente, mal passaria pela garganta num choro engolido. Você, porque nem sabe que precisa realmente falar alguma coisa. Nos afastamos em silêncio.

Foi uma pena para mim que não aprendi a dizer chega. Foi grande sorte para você, eu ter aprendido a ser tolerante em grau máximo. Só de pensar em dizer que eu te amo, meus olhos se enchem de lágrimas, como agora. Nunca te disse. Talvez naquela tarde, bem rápido, não sei se você ouviu.

Queria tanto que mágoa tivesse prazo de validade. Queria poder jogá-la no lixo reciclável e transformá-la num bibelô qualquer, num objeto não-cortante (porque ainda me corta), num urso de pelúcia. Mas a mágoa fica no coração, e este, eu não posso descartar. Além da dor, ele carrega sentimentos aquém da sua própria imaginação.

Já quis te ver atrás das grades, nos meus surtos adolescentes. Ela não deixou. Sim, ela, a quem eu devo simplesmente tudo. Eu não queria prender você, na verdade. Eu queria prender todos os sentimentos que me fizeram arder em choro. Ou os que prenderam minhas lágrimas, estes, os piores.

No meu corpo, a roupa mais bonita era sempre para passear com você. No céu, o sol brilhava garantindo um dia perfeito. No relógio, as horas passavam indicando que você não viria. Mais uma vez.

E ali estava eu, sentada em frente à janela, de maria chiquinha no cabelo e com a roupa mais bonita, aquela de sair com você. No cenário, a minha casinha de almofadas. Destruída. Assim como eu.

Aquele dia eu não escrevi. Seria mais uma página em branco a se juntar com as outras. Aquele dia eu não escrevi. Você jamais leria.

Engraçado como tenho aversão por finais. Finais de filmes, novelas, fatos reais. Não gosto de assistir a finais. Se não são meus olhos que cerram, são meus pensamentos que devaneiam.
Deixe-me entrar. Não quero ser apenas uma figurante da sua história. Quem sabe assim, eu consiga escrever um final. Feliz.


Miréille Almeida em mais um clichê da vida real.

13 de abril de 2008

Só substitua em caso de OFERTA


Não tenho dúvidas de que meu recém-colocado-na-panela "macarrão instantâneo pronto em 3 minutos" está mais saboroso do que o Prato de Nomè Dificilè (faça um biquinho) que uma apresentadora Global acabou de degustar no seu programa junto com uma convidada ilustre (ninguém acreditou, Miréille).

Sou uma redatora de difícil socilização na cozinha porém, acredito que, por mais ilustres que sejam as pessoas que assistem, será comercialmente impossível encontrar aquelas especiarias indianas que parecem estar em nossa despensa sempre que aparece um jantarzinho casual numa quarta-feira à noite.

- Hoje o jantar será na casa do Paulo. Vou preparar um Yam Nuea da Thailândia.
- Hummm, que delícia! Será que você poderia acrescentar um pouco mais de limão Kaffir asiático?
- Claro, pega ali. Ah, me passa o molho nampla.

Queria que minha cozinha fosse igual a dos vendedores do Polishop (é um sonho que eu tenho). Tudo é fácil, delicioso, custa baratinho e sempre tem na despensa. Que tal um arroz perfumado com leite de coco? Frasco de 50 ou 100 ml?

Ah, mas se você não tiver palmito pupunha pode substituir por pimenta kim chee e caju assado com espetinhos de cana-de-açúcar. Que óbvio!

Nunca coloque suas esperanças nas substiuições culinárias dos Chefs de nome difícil. Continue freguês da vendinha do seu bairro ou você poderá tornar-se uma pessoa frustrada.

Ontem mesmo, zapeando com o controle remoto, um Chef de cozinha utilizava vieiras com óleo de amendoim, mas claro, se você não tiver, pode substituir por azeite de trufas. Todo mundo tem em casa. Sem ironias (mas fazendo cara de of course).

Nem por isso, os telefones 0300 param de tocar à procura do Forno Tandoor que irá deixar seu peixe temperado com cerefólio francês e finalizado com um toque de cardamomo do Malabar da Índia muito mais apetitoso. Humm...

Humm?? Estou sentindo um cheirinho proveniente da minha cozinha. Deve ser o aroma do pinholi que coloquei no molho pesto.

(após alguns minutos)

Voltei. Não era do molho pinholi. Nem do molho pesto. O cheirinho era para sinalizar que meu macarrão instantâneo pronto em 3 minutos, já estava a 30 minutos no fogo na esperança de reencarnar numa panela do programa Cozinha Internacional do canal 58. Ah, se eu tivesse um Forno Tandoor.

E se eu não tiver mais nada no armário, posso substituir pelo quê?

No máximo, por uma oferta (adoro essa palavra)!
Se eu fosse chef, diria:
"EM CASO DE OFERTA, SUBSTITUA UM ÓLEO VIRGEM POR UM EXTRA VIRGEM."

Ps.: já volto, fui na vendinha.

Miréille Almeida, pelo menos eu não sou frustrada.

28 de março de 2008

Próxima parada: inspiração


Quem inventou que essa tal de inspiração deveria aparecer nas horas mais inexistentes do dia? Até parece aquele slogan do Unibanco - que é 30 horas -, mas a gente nem imagina o que ele faz nas 6 horas que sobram.

Você fica ali, na frente do computador com aquele arquivo word aberto, escreve uma frase, apaga tudo, escreve outra e apaga novamente.

Então, você sai lá fora pra fumar um cigarro (detalhe que eu não fumo, aí só me resta um chocolate engordativo), pensa em tudo o que é mais aleatório (porque sabe que é assim que surgem as idéias), mas ela não vem. Termina o cigarro, acende outro (modo de dizer), conversa com um colega de trabalho e vem a idéia. Ele não pára de falar e você com aquela frase pronta na mente, na ponta da língua, já não prestando a mínina atenção no que diz seu ilustre amigo, tudo em prol de segurar a frase no pensamento.
Ele dá uma pausa na falatória (ainda bem que não pediu sua opinião) e você joga o toco de cigarro fora (no meu caso a embalagem do Sonho de Valsa) e corre para o word escrever o slogan premium master top.

Neste momento, percebe que o pc está travado (por este motivo você saiu lá fora para acender seu cigarrinho) porque o Murphy inventou aquela Lei. Enfim, encontra um papel e caneta e na hora de escrever grita um palavrão (mentalmente) e diz: - %$*&*, esqueci.

Inspiração tem horário marcado igual cabeleireira e médico. Sempre atrasa. É pegar no sono, luzes apagadas, achar a melhor posição na caminha e ela chega. Desesperada por um pedaço de papel e uma caneta Bic.

Incrível como a sua imaginação SEMPRE acha que no dia seguinte você vai lembrar de completamente todas as idéias que chegaram na calada da noite (e não encontraram papel), como se fosse uma notícia bombástica, plantão da Globo, fofoca da atriz principal. Que nada, a idéia é esquecida na mesma proporção de um BBB que saiu da casa terça passada (ou é na quinta?).

E lá vai você, levanta sem calçar o chinelo correndo o risco de levar uma bronca da mãe, meio tonta, tenta não acender a luz, mas não funciona. Já perdeu o sono mesmo. Encontra a caneta que já estava meio preparada – no caso da inspiração conseguir encaixar um horário melhor pra você do que a secretária do médico consegue -, e escreve (atrás do boleto da Renner ou do folder do restaurante de comida a quilo) umas unidades de palavras meio desordenadas para correr logo para a cama. Ufa! A idéia ta ali. Agora pode chamar o próximo: - Sono! Esse vai demorar pra vir. Mas você continua metade feliz, porque a outra metade da felicidade está no verso daquele boleto.

No dia seguinte acorda, abre a janela sorridente como comercial de creme dental, sempre atrasado demais para tomar café (no meu caso Nescau), e um pouco adiantado para assistir os primeiros blocos da Ana Maria Braga (eu não escrevi isso).

Sai correndo, pega o carro e vai trabalhar (como sou Carbon Free, vou de ônibus). Ah, a inspiração, ao menos a minha, também anda de ônibus. Já criei alguns slogans premium master top depois de passar a catraca.

Chega na agência e lembra que o folder da comida a quilo ficou em casa (ou o boleto, não interessa). Encurtando a história (já está meio maçante), descobre que naquela hora que você abriu a janela sorridente como comercial de pasta de dente (fui obrigada a rimar), minutos mais tarde a idéia voou pela janela. Literalmente.

Agora estou mais prática e guardo minhas idéias no gravador do celular. O pior é que no dia seguinte, quando vou ouvir aquela dúzia de palavras com voz de nariz entupido, eu sempre digo: - Que diabos eu quis dizer com isso?!
Fica sempre pela metade. O jeito é levantar, calçar o chinelinho (se der tempo) e pirografar a idéia numa pedra (finja que não leu isso).

E lá se vai mais uma redatora para o trabalho, que passa pela catraca, enquanto aguarda a idéia chegar. Espero que chegue antes do ponto de descida.

Mireille Almeida pegando todos os transportes coletivos do terminal urbano até encontrar AQUELA idéia.

20 de março de 2008

Páscoa Choco Free (já to chorando)


E às vésperas da Páscoa, minha data preferida, a data onde mato, estrangulo e devoro (bem literalmente) meus desejos mais doces, senti um gostinho amargo antes de abrir o primeiro ovo. Como se ele fosse de alface recheado com chicória.

Meus dias assaltando a despensa estariam contados e meus domingos cobertos por uma camada do delicioso chocolate ..... (alguma empresa de doces quer patrocinar esta frase?) estariam fadados ao ocaso??

O que eu faria com um dos momentos mais prazerosos do meu dia?

Já estou me sentindo fraca. Só me resta morrer de inanição.

Sempre tive uma mente doce (no sentido bem literal) e um pensamento calórico. Enquanto minha mãe escolhia o restaurante pela salada, variedade de pratos e preço, eu escolhia sempre pela sobremesa. Sempre.

Nada de sagu, gelatina picada ou pudim de caixinha. Aliás, durante os nove meses que morei no ventre de minha mãe, contam que ela comeu sagu durante os 270 dias da gravidez (demorei pra fazer esse cálculo). Nasci enjoada. Porém, apenas de sagu.

Antes sequer de abrir os ovos que o coelho escondeu, eu abri meu exame. E não gostei do recheio.

Um exame de rotina que iria mudá-la (a rotina) de marrom para verde. De deliciosa para sacrificante. De doce para qualquer sabor que você deteste. De embalagem bonita e atrativa para direto do campo. Mas, que por fim, iria fazer despencar o que estava lá nas alturas: o meu colesterol.

Toda decisão – mesmo que forçada – é feita de escolhas. Não escolhi o rabanete. Não escolhi deixar de comer doce. Mas imitando todas as chamadas de revistas em prol da saúde, escolhi POR UMA VIDA MAIS SAUDÁVEL (acho que esse slogan é de alguma margarina).

Caros poucos, porém queridos, leitores. Estou desafiando o meu vício a trocar (não para sempre) cada ovo de Páscoa por um ramo de alface. ‘Ramo’ não seria de flores? Não importa. O que importa é que vou tentar, mesmo que noventa por cento de mim não acredite que eu vá conseguir. E os outros dez tem certeza que não.

Em torno de quarenta dias (só comendo alfafa, rabanete, cenoura e outras delícias) espero estar com a cotação glicêmica atropelada para, então, retornar às minhas atividades chocólicas novamente. Dia 1º de abril (data bem aleatória) eu retorno aqui com o post: CACAU FREE - Como me libertei do vício.

Quem me conhece, que me compre (me compre uma barra de chocolate para eu comer com mousse de maracujá).

Mireille Almeida contando até 40 bem rapidinho. Mas ainda to chorando.
Ps.: espero não ter mais nenhuma novidade novinha em folhas (de alface) para contar.

18 de março de 2008

Stop

Certa vez eu estava arrumando algumas tralhas e tranqueiras num armário e meu irmão, na época com 9 anos, pegou um dos objetos, olhou, olhou e intrigado perguntou:

- Mimi (ele me chama assim), o que é isto?

Por um momento me senti tão antiga, tão do século passado (pior é que nasci mesmo no século passado)! Um objeto que marcou a minha infância, a minha pré-adolescência, tornou-se um OVNI para uma criança que conhece de play station a orkut.

Mesmo me sentindo nesse estado deplorável, ri muito e respondi:

- É uma fita cassete. Eu usava fitas para gravar músicas da rádio (nessa hora foi ele quem riu).

E ainda lembrei que me vangloriava para minhas amigas por ter 7 anos de experiência em gravação de músicas (dos 8 aos 15 anos). E durante os 7 anos como ‘produtora musical’, continuava cortando a música no final ou gravava os breaks (intervalos comerciais) junto.
Precisei dar um STOP na minha carreira.
É, ainda acredito que foi melhor trocar o ‘play’ pelo papel e o ‘rec’ pelo lápis.

12 de março de 2008

O espelho


Ontem senti uma falta enorme de você. Fiquei te observando. Te analisando friamente em meu pensamento. Teu sorriso estava mais iluminado, tua pele combinando com o arco-íris (o quê?), mas sua alma estava meio ‘preto e branco’ (agora entendi). Você se perdeu ou eu que perdi a sua mudança?

Foi muito depressa. Você deu fim àquele ar inocente, meio ingênuo até. Você perdeu seu maior vício. Rasgou sua roupa de anjo. Nem a auréola acendia mais. Mas eu sei o que foi. Foi um misto de medo, liberdade e maturidade.

Senti falta até do seu jeito desligado, sem a menor noção de localização no espaço, na rua, no bairro, enfim, uma bússola seria um kitsh a mais para te atrapalhar nessa sua vida tão sonhadora.

Até aquela sua mania de dormir nos finais de filmes você perdeu (de dormir no início e no meio também). Você escorregou no pote de mel e achou que tanta doçura não causaria diabetes? Agora está doente, tentando ler a bula depois de ter tomado o veneno.

Minha mãe conta que quando eu tinha 2 anos de idade, amarrei uma trouxinha de roupa num cabo de vassoura, coloquei nos ombros e fui embora de casa (devo ter imitado algum desenho animado do Pica-Pau). Ao saber que teria uma vaca no caminho, voltei.

Foi isso que aconteceu com você. Achou que iria encontrar apenas uma vaca, mas se deparou com uma boiada. Mas que bom que voltou. Voltou a ser o que sempre foi. Já estava com muitas saudades. Se demorasse mais, eu iria desaprender como é bom ser você mesmo, sem mais, nem menos. Eu sempre te amo, menos naqueles três dias do mês (aqueles em que eu quero matar todo mundo).

Mas foi aquela conversa que te abriu os olhos, os ouvidos e a consciência. Que te fez voltar e colocar os pés no chão, mesmo isso não sendo o seu forte. Tem sempre uma conversa dessas que chega de presente.

Agora que você experimentou quem você ACHOU que sempre quis ser (peraí, deixa eu ler essa frase de novo com calma), concluiu que jamais será novamente. Sua mãe te criou tão bem, que se você tomar toda a liberdade do mundo, no máximo terá uma congestão.

E continuei te olhando, e você foi voltando a ser o que sempre quis ser: VOCÊ MESMO.

Você foi sorrindo e eu sorrindo de volta. Senti um alívio e você também sentiu. Agora sei que você voltou pra valer, assim, essa eterna criança.

Continuei me olhando no espelho e percebi que esse tempo todo eu senti falta de mim. Então, desfiz a trouxinha de roupas, guardei o cabo de vassoura e vi minha alma refletida novamente, assim, inocente. Voltei.

Mireille Almeida correndo de braços abertos para matar a saudade de si mesmo.

5 de março de 2008

Analogias de um amor de verão


Droga que nenhum médico receita, porém, não tem contra-indicações. Ele não mata, mas dá taquicardia e falta de ar. É como ir pro Alasca e não levar casaco. “Eu te avisei”, diz aquela voz interior (ou a voz da mãe mesmo).


É tudo tão interessante, diferente e inédito. Como se fosse o primeiro verão que isso acontece. As ondas do mar vão e vem, assim como ele, o amor de verão.

Não pegue onda se não sabe surfar (mas como vou aprender, então?). Ta certo, é subindo na prancha que se aprende o equilíbrio. Momentos intensos, manobras radicais e muitos caldos. Até aprender que a onda começa, mas que também acaba.

O amor de verão é regado a coquetéis coloridos e noites de estrelas. Quem nunca viu o coelhinho na Lua? Aprendi que quem o vê, é porque realmente sabe viver um amor de verão. Saiba que, quando ele começa, tem data, local e vôo pra decolar...e pra bem longe.

Que seja intenso enquanto dure. No amor de verão, não há espaços para pensar em nada. Muito menos no fim. Viva, aproveite, e só o aceite se ele realmente te fizer rir. E que sejam boas gargalhadas.

É claro que o amor de verão aceita tempestades. Porém, curtas. Por um lapso de momento, você age como se ele fosse durar até a próxima primavera. Mas nem tudo são flores. Não brinque de bem-me-quer. Já vi muitos jardins desbotados. Mas não o meu.

Não compre casacos para o seu amor de verão. Enquanto estiver com ele, não precisará. E quando ele sentir frio, você não estará mais por perto.

Aprenda outras línguas, outras gírias, outras idéias que você jamais pensou sequer que existissem, ou que pudessem ser ditas. Não tenha rotina, ritmo ou regras. Seja você, por ao menos um verão. Se ele não te aceitar, calma, o outono surge pleno.

Deixe seu coração bater na intensidade da sua respiração. Deixe sua boca secar e seus lábios tremerem.
Mas nunca, nunca deixe chegar ao seu pensamento. Nunca (é bom repetir em voz alta). É intenso e rápido demais para invadir três ou quatro segundos da sua mente.

Na memória? Cuidado. Se ela invadiu sua memória, foi porque ela escapou quando você estava com aquela cara de bobo.

Memórias póstumas (e não são aquelas que caíram na prova do vestibular)? Somente em outras estações. Aí, sirva-se à vontade, use casaco e olhe para o coelhinho numa noite estrelada.

Se fosse por mim, o horário de verão seria também de invernos, outonos e primaveras. Mas ele tem uma finalidade e, por isso, ele tem um fim. Assim como o amor de verão.

Não é cego, porque nem dá tempo de abrir os olhos. Talvez surdo, para não ouvir palavras tão doces que façam acelerar o coração. Mas é mudo. Porque amor de verão, não precisa dizer adeus. Ele sabe a hora de ir embora. Go, but don’t go away!

É só acertar o relógio e tudo será como tem que ser. Que atire o primeiro grão de areia quem nunca viveu um amor de verão.


Mireille Almeida com o relógio em ponto (mas que por vezes, atrasa).

25 de fevereiro de 2008

Entre achados e perdidos...



Eu bem que desconfiei que 2008 ainda não havia começado. Não por viver no Brasil e saber que aqui o ano só começa após o carnaval. Mas eu senti que algo estava faltando. Algo muito sutil, meio abstrato, porém, insubstituível e arrebatador (também quero!).


Minha sensação até a pouco era como fazer um bolo delicioso de chocolate e esquecer o fermento (minha especialidade culinária), ou como esperar o sábado de praia e amanhecer chovendo. Resumindo: o ano começou mágico, mas sem cartola.


Foi beirando a quarta-feira de cinzas que descobri o ingrediente que faltava (e não era o fermento). Descobri o salmão do meu sushi, o esmalte vermelho das minhas unhas, a lente de contato dos meus olhos míopes.


Não pensem que encontrei a tampa da minha panela. Não. Encontrei foi o ingrediente para começar o ano do jeito bem à brasileira: o tempero mais picante, que deixa os lábios inchados de tão forte. Delícia! Enfim, encontrei a ADRENALINA que perdi em algum lugar de 2007. Talvez no black-out da virada do ano. Ou perdi junto com os sentimentos que deixei trancados num baú.


Ufa! O que importa é que ela voltou. Enérgica, rápida, excitante. Bendita adrenalina. Até a folha em branco, que tanto me empolgava e pouco se manifestou esse ano, começou a borbulhar de letrinhas, assim como o espumante que bebi para comemorar a sua volta!
Como eu a trouxe novamente? Foi da maneira mais distraída possível. Numa conversa despretensiosa numa mesa de uma boate com amigas, numa terça de carnaval onde o assunto era justamente a própria (falando nela...).


Esse combustível, que parece surgir do nada, percorre as veias com tanta rapidez, que você só sente quando ela faz o coração dar aquela pulsada mais forte (é como comer chocolate em plena TPM: êxtase total). Fácil entender que adrenalina vicia (e não engorda). Mas essa é do bem. E que bem ela faz.


Mas eu ainda não havia notado a sua presença. A adrenalina estava ali, pronta pra dar o sinal. Me fez dançar, rir, sem prestar atenção ao meu redor. Talvez tenha vindo com aquela simples conversa. Ou com alguns olhares furtivos por entre as luzes da pista. Ou, quem sabe, com aquela perfeita flor feita de guardanapo que ‘alguém’ mandou o garçom entregar.


Agora que eu a encontrei, tenho certeza de que o ano promete e vai cumprir. É será como um veneno (do bem). Uma vez no corpo, só um antídoto muito forte (leia-se grande decepção) para neutralizá-la. E isso não vou deixar acontecer.


A Adre (já me permito essa intimidade) está na espreita, esperando a hora em que estamos preparados internamente para recebê-la. Esse hormônio é aquele mesmo que chega quando você leva um NÃO, ou quando alguém corta sua frente no trânsito, ou quando não recebe a ligação esperada e explode em raiva.


Mas a grande diferença é que quando corpo e mente estão preparados, ou seja, quando há sintonia e tranqüilidade em nosso interior, ela vem para dar força, e, quem sabe, pra ficar por mais um ano.


Aqui, a regra do procura-acha, não vale. Não se procura a adrenalina. Ela vem quando você está ali, de bobeira na mesa de um bar; quando percebe um olhar charmoso a te observar, ou quando recebe um simples: “Adorei te conhecer, posso te ligar?” (Adrenalina combina com tanta rima?).


Eu sinto que 2008 veio para desabrochar. Mesmo que a flor seja de papel e que eu continue tentando não rimar.

23 de janeiro de 2008

A ÚLTIMA VEZ QUE RI NUM ELEVADOR (História Verídica até demais...)

(Texto proibido para menores de 18 centímetros)
Ps.: mãe, não leia!

Esta é uma das histórias mais erótico-engraçadas que aconteceu na vida real de alguém. Vida real de quem? Melhor eu não dizer. Faz uns 3 ou 4 anos, mas quem foi protagonista, jamais irá esquecer (nem perdendo a memória).

Demorei para colocá-la a público. Não queria revelar nomes, mas pensei: “Preciso contar, e quem lê meu blog sabe que todas as histórias têm um fundo infinito de verdade”. Então, não tive saída.

Respiro fundo e, lá vou eu! Vou me colocar como personagem principal, apenas para o texto fluir melhor na 1ª pessoa. Quer você acredite que NÃO tenha sido eu, ou não. Que comece...

Nas minhas férias de alguns anos atrás, fui passear na casa de uma prima. Filmes, piscina, festinhas, passeios, fofocas em dia e um elevador. Um simples elevador que tornou um simples deslocamento de corpos, uma cena simplesmente inesquecível. Simples, assim. Ou nem tanto.

Quem nunca entrou num elevador e já sentiu uma vontade mórbida de rir? De rir muito.
E aquela conversa de elevador? Sempre começa com a previsão do tempo e acaba pela metade.

Depois do que vou lhes contar, eu não entro mais em elevador sem antes ter um pensamento profundamente triste. Tem que ser triste mesmo. Um ente querido que faleceu, os ataques do Bin Laden ou a dor na consciência de ter passado trotes na infância. Prefiro sair chorando do elevador a lembrar do fatídico momento que me aconteceu naquelas férias de julho.

Voltando às conversas com minha prima no apartamento dela, começamos a falar sobre homens. É, depois de já ter falado sobre moda, cabelos e dietas, só nos sobrou esse assunto.

Ela, que morava num condomínio aparentemente calmo, no 4º andar, resolveu me mostrar um brinquedinho que o namorado havia dado a ela uns dias atrás, antes de viajar para bem longe. Minha prima queria trazer o presente para o apartamento dela.

Ele, o namorado que estava viajando, morava no 2º andar do mesmo condomínio. Por ironia, se conheceram no elevador. Apenas 2 andares nos distanciavam do tal brinquedo. Apenas 2. Apenas?

Era uma tarde de quarta-feira. O condomínio estava vazio. Ou nem tanto. Saímos do apartamento dela no 4º andar, e fomos em direção ao elevador. Entramos normalmente, ninguém a bordo além de nós.

Chegamos no 2º andar e mal sabíamos o que nos aguardaria instantes mais tarde (por que comigo, Senhor). Minha prima, que tinha a chave do apartamento do namorado, abriu a porta e fomos até a suíte para ela me mostrar o brinquedo.

Uau! Ela ganhara um vibrador enorme, uns 18 centímetros, no formato de um pênis (eu falei que o texto era proibido, você que continuou lendo). Mas não era só um simples pênis (terei que trocar PÊNIS por BRINQUEDO, ok?! Tenho medo que algum tarado pesquise no Google e acabe encontrando meu inocente blog).

O pau era grande, firme, atlético, bem-dotado. Chega! Não vou ficar descrevendo um pau no meu blog (perceberam por que demorei tanto para contar este episódio?! Estão se sentido ofendidos, não é?! Podem parar a leitura por aqui, o próximo texto prometo que conto as aventuras dos Ursinhos Carinhosos, meu desenho favorito na infância).

Voltando, então (para os que tiveram coragem de prosseguir a leitura)! Não era um simples brinquedo. Ele se movia, e muito (peraí, eu não o usei). Minha prima colocou algumas pilhas e o brinquedo começou a se mexer (imagina se uma criança pesquisa ‘brinquedo’ no Google? Vou ter que postar meus textos atrás das grades).

Continuando novamente. Liguei o vibrador e ele começou a vibrar e se contorcer um pouco. Claro, seria o único movimento esperado para ele. Achamos muito engraçado, até broxante de certa forma. Demos muitas risadas.

Bom, saímos do apartamento do namorado levando o vibrador. Continuei com o brinquedo ligado porque não conseguia desligá-lo. Tudo bem, ninguém nos corredores, era uma tarde de quarta-feira.

Chamamos o elevador e comentei: “Imagina se tem alguém? Hahahaha”
Estávamos rindo muito, imaginando como seria a cena. Iam pensar o quê da minha prima querida? Duas mulheres e um vibrador dançante no elevador.

Enquanto o elevador não chega...entre risadas e gargalhadas:

- “Desliga isso”, minha prima falou. E, ahuahuauha.

E o brinquedo não parava de se contorcer e emitir um som vibrante. Brrrrrrrrrrrrrrrrr.

- “Não consigo”. Falei me matando de tanto rir. Brrrrrrrrr

- “Imagina se encontro algum vizinho no elevador? (Brrrrrrrrr) Esconde isso, Mireille”, falou minha prima também não segurando tantas gargalhadas.

Não pensei duas vezes. Escondi o Excelentíssimo debaixo do meu moletom. Agora eu tinha um pau vibratório se contorcendo na minha barriga. Mas é normal, isso acontece com todo mundo. Ainda mais dentro do elevador.

Ótimo, apenas 2 andares e eu estaria livre do Sr. P....

O elevador tinha câmeras, e não seria eu a primeira pessoa a mostrar o ... para o porteiro do condomínio, num filminho caseiro. Preferi aguardar longos 2 andares para tentar desligá-lo.

Opa, minha prima apertou o botão do 4ª andar, mas o elevador infeliz não subiu. Ele desceu para a garagem. Não, não, não.

O elevador parou na garagem. Aqueles segundos que antecederam a abertura da porta (leia-se PORTA e não PERNAS) me fizeram chegar ao ápice da tensão (leia-se TENSÃO e não TESÃO).

Nos olhamos apavoradas e rindo ao mesmo tempo com aquele negócio vibrando na minha barriga. A porta do elevador se abriu. Entrou um homem. Um vizinho de aproximadamente uns 30 centímetros, ops, 30 anos.

Não conseguíamos parar de tanto rir. Literalmente eu me contorcia com tanta risada. O homem não sabia o que fazer, acabara rindo também, mas um pouco desconfiado e disse:

- “Ainda bem que eu ouvi vocês rindo de longe, se não iria achar que estavam rindo de mim”, disse o vizinho, ainda meio sem graça.

Não conseguimos responder nada ao rapaz. Ríamos ainda mais. A dor na minha barriga era tanta (por causa das risadas), que amoleci (eu amoleci, mas o brinquedo continuou duro e emitindo aquele Brrrr estrondoso Brrrrr som).

Fui amolecendo, amolecendo, e o elevador chegando no 4º andar. O homem não sabia se ria junto ou se falava algo para amenizar. Foram segundos intermináveis.

Quando enfim, já no 4º andar, ao sairmos do elevador numa epidemia de risadas, o homem que seguiria até o 7º andar, disse:

- “Acho que vocês deixaram cair o motivo da risada”, falou tão natural, como se estivesse numa simples conversa de elevador “é, acho que vai chover mesmo”.

Neste momento o mundo começou a girar. Parecia que eu tinha tomado um porre (leia-se PORRE mesmo e não outra coisa) de Cachaça 51, Chandon e Batida de Coco.

Minha prima saiu corredor afora. Eu tive que olhar para o chão e ver o brinquedo se contorcendo e pior, trancando a porta do elevador. Uma cena cotidiana.
Sabe quando tentar se explicar só piora a situação? Sei sim, consciência, mas não me lembrei disso, e então:

Em 1/2 segundo consegui me abaixar, pegar o Brrrrrinquedo e dizer:

- “Não é meu”.

Como vi que falei besteira, consertei, ou melhor, tentei:

- “Nem da minha prima”.
Como a emenda ficou pior que o soneto, então, numa tentativa demente, doida, insana, impensada, eu falei já me arrependendo:

- “É do namorado dela”. E saí correndo.


Pronto! Não preciso nem falar que a minha prima começou a andar de burca e a utilizar apenas as escadas.


Mireille Almeida bem envergonhada, mas que necessitava desabafar essa história da sua barriga, ops, garganta.


Importante: aos leitores que chegaram até aqui meu Muito Obrigada, e, peloamordanossasenhora, comentem algumas palavras de alívio para me confortar.

É só clicar logo abaixo em Excelentes Comentários, depois (se você não tiver Blog) escreve o que quiser e seleciona a bolinha “Nome/URL” (escreve só o seu nome, URL não precisa) ou “anônimo”, aí é só enviar.

10 de janeiro de 2008

Rapidinhas Natalinas

Rapidinhas Natalinas VERÍDICAS do comércio brasileiro (aconteceram comigo):

Num sábado muito agitado, fui até o Centro numa loja de calçados. Perguntei para a atendente, que prontamente veio em minha direção:

- “Moça, você tem esse modelo no número 35?”.

E ela responde também com a mesma prontidão:

- “Infelizmente não trabalhamos esse modelo de tênis nessa faixa ETÁRIA. Temos apenas a partir da faixa de 36, 37”.

Balancei a cabeça e saí da loja explodindo, digamos assim numa Escala Hichter de 7 faixas etárias...

Será que já inventaram um creme anti-rugas para os pés?


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Em outra cidade, entrei numa loja de roupas esportivas, e perguntei para a moça:


- “Moça, você tem top? Mas precisa ser bem apertado, pois eu faço exercícios de alto impacto na academia”.

Comentei que fazia Power Jump. Então, foi aí que uma outra atendente entendida de esportes, entrou na conversa e disse:

- “Aaaah, mas então tem que ser muito apertado, Bungee Jump é muito violento mesmo”.

Consegui controlar a instabilidade dos meus lábios que sucumbiam por uma risada escandalosa. E repeti a dose:

- “Sim, Power Jump na ACADEMIA é de alto impacto, mas a cama elástica absorve”.

Mas a atendente esportiva não se conteve:

- “Sim, ainda mais quando fica de cabeça pra baixo”.

E foi o que eu fiz. Fiquei literalmente de cabeça pra baixo. Só que ao invés de saltar, eu ri.

Conclusão: acho que a atendente já pulou de Bungee Jump, mas, infelizmente, a corda era comprida demais.

18 de dezembro de 2007

Fechado para balanço



Final de ano, para a maioria das pessoas, é cheio de promessas e desejos de grandes realizações. Pois bem, resolvi fechar bem o ano que se finda. Vou fechar com chave de ouro, se puder, ainda tranco bem e jogo-a fora. Vou FECHAR PARA BALANÇO.


Sabe quando você vai até uma loja na qual viu um par de sapatos lindos na vitrine, dia seguinte chega bem empolgada (o) e a moça avisa que acabou? Mas calma, ainda tem no estoque um igual ao que você procura, só que numa cor horrorosa e num número menor. Ou talvez aquele outro modelinho, que todo mundo já tem. Bem manjado.

É exatamente por isso que vou fechar para balanço. Ninguém mais entra e todo mundo sai. Não vou me contentar com o modelo básico nem com um número bem menor que o meu. Estou preferindo andar descalça a despencar de um salto 12.

E se entrar um caco de vidro no meu pé? Ah, querido diário, já entraram vários. Já manquei, caí, usei muletas. Mas esse início de ano insiste em me convidar pra sair, pra ir ao cinema, pra tomar um banho de mar. Parece simples, não?! Eu sei o que esse novo ano está querendo. Ele quer me conquistar. Quer vir de mansinho, como se eu nem imaginasse que ele tem longos (ou curtos demais) trezentos e tantos dias, várias segundas-feiras, sábados de chuva, hora extra na sexta-feira, feriados que caem nos finais de semana, argh! Mas aquela contagem regressiva é tão mágica, que me faz esquecer que por trás de todo seu charme, virá um longo e emocionante ano, pra não dizer outros adjetivos.

Primeiro ele me encanta com sua roupa branca, um brilho de “agora vai ser diferente” no olhar. Depois, me convida pra contar até zero e viver uma nova vida. Parece que chegou de repente, mas esperei o ano todo por ele. Como se não bastasse, ele me serve um espumante, brinda comigo pela nossa felicidade como se já fossemos íntimos. E depois de eu quase ficar de quatro, ainda me dá um forte abraço no primeiro segundo da sua chegada.

Eu pulo as sete ondas, como os doze grãos de uva, entro com o pé direito e esqueço que no último segundo o Velho se foi. Não voltará mais. Fechei para balanço e joguei a chave fora. Desculpe se alguém ficou lá dentro. É possível que eu não volte nunca mais. De repente, se num domingo chuvoso você estiver trancado vendo a chuva cair pela janela, talvez eu passe por ali, vou sorrir e se eu não estiver com as mãos ocupadas, vou acenar pra você.

Eu sei que o ano novo me esconde vários mistérios. Talvez ele seja mais cruel do que as segundas-feiras ou aquela poça d’água logo pela manhã do Velho, mas eu não posso prejulgá-lo.

Por uns instantes, achei que a esperança tivesse ficado trancada com você, Sr. Ano Velho. Mas ela escorregou por debaixo da porta, junto com a gota de chuva que caía daquela janela. Nem você viu, talvez não tivesse deixado escapar. Tamanha é sua vontade de continuar ditando ordens.

Esperança, mesmo sem ser chamada você insiste em me acompanhar, hein?! Parece até mulher que apanha do marido, reclama, dá queixa, faz corpo delito, e depois se derrete com um pedido de perdão seguido de uma noite memorável. Apanhar, eu? Ah, esperança, só um tapinha não dói, é?!

Mas como eu não vivo sem você, pula na garupa que a partir de hoje eu e o Ano Novo vamos aproveitar o início dessa nova paixão, que como todo início, é cheio de esperanças.

Mireille Almeida que aprendeu a levantar antes mesmo de cair.

28 de novembro de 2007

Vendem-se lágrimas

Era num domingo, dia de finados. O restaurante estava meio cheio (para os otimistas) ou meio vazio (para os pessimistas). Cidade pequena tem sempre aquele restaurante caro que você só entra se for numa data bem especial ou se for convidado. No meu caso foi a segunda opção. Ambiente familiar, mesas preenchidas com maridos, esposas, filhos.

Eis que adentra no recinto (que início de frase mais brega) uma senhora que fez engasgar quem engolia um pedaço de lagarto ou bebia uma Coca-cola com gelo e limão: eu.

Imponente, ar severo, cabelos recém-saídos do melhor salão da Praça, senta-se numa mesa diagonal à minha. Meus olhos não conseguiam disfarçar. Era inevitável não olhar aquela caricatura diante de mim.

Tudo combinando: blush vermelho que ia das maçãs do rosto até quase a testa, que combinava com o cachecol vermelho, batom e unhas de mesma cor. Vestia um casaco bege até os joelhos, que deixava sua meia-calça arrastão cor rubra, bem à mostra. Sapatos, claro, vermelhos de verniz.

Todos os olhares eram para ela. Maquiagem carregada como quem acabara de chegar a um casamento (de Drag Queens), ela pediu uma sopa de entrada e apreciou o prato como quem não tem pressa para voltar, pois talvez não tivesse ninguém a esperá-la.

Sentou-se numa mesa para quatro preenchendo somente o seu lugar. Sozinha.
Sozinha não, solitária. Em seu dedo não havia aliança, apenas um anel recheado de brilhantes. Pareceu-me ser viúva.

Nenhum sorriso saía de sua expressão carrancuda. Uma verdadeira personagem de desenho animado. Ou desanimado. Parecia que daqueles olhos nunca havia caído uma gota de lágrima.

Lentamente levava o garfo à boca, sem preocupação com o tempo. Mas algo me intrigava por debaixo dos quilos de maquiagem.

Seria um travesti? Uma viúva falida? Uma imaginação da minha mente? Não. Mas eu tinha que descobrir.

Fiquei à espreita, esperando sua saída. Aquela senhora entrara num carrão importado que nem sei o nome. Eu, mais que rapidamente, passei a segui-la.

Assustei-me quando ela parou o carro em frente a um velório. Mas resolvi parar próximo e espiar. A curiosidade era muita. Aquela senhora entrou no velório sem olhar para ninguém, olhou o defunto e pôs-se a chorar, a chorar, a chorar.

Minha nossa! E eu pensando horrores daquela senhora e ela acabara de perder um ente querido. Senti-me mal por alguns minutos.

Liguei o motor do carro para ir embora e vi a senhora sair do velório com aquele semblante frio, entrar no carro e parar logo adiante, onde havia outro velório. Dessa vez, fui obrigada a descer. Velório é público, então me misturei e pude assistir de perto a mesma cena: ela entrou sem olhar para ninguém, aproximou-se do caixão e, após 5 minutos de muito choro, saiu com aquela cara de quem almoça sozinha num restaurante.

Ah, aquela senhora rica e solitária. O que ela faz hoje, com certeza alguém terá que fazer por ela amanhã. Mas é bom que ela deixe os cheques preenchidos.

Mireille Almeida admirada que o dinheiro compra até lágrimas.

24 de setembro de 2007

Pretexto vencido...


Os preparativos para a festa junina do colégio estavam chegando. As aulas matutinas foram interrompidas para as turmas das 4ª séries se dirigirem até o ginásio para a emocionante e tensa escolha dos pares. Era a tão esperada Dança da Quadrilha que estava a se formar.
Fila de meninas para um lado, fila de meninos para o outro.
Olhei, e ao meu lado estava um menino de óculos, um pouco gordinho, sem graça. Uma desgraça para a minha primeira dança.


Minha melhor amiga na época também não estava contente com seu par e se encantou por aqueles dois pedacinhos de vidro de olhar furtivo.
Sem pestanejar e de olho na professora, trocamos de lugar.
O meu novo par, quase que num espasmo muscular, (se rimar mais uma vez, vira poema) me concedeu um sorriso de canto de boca, olhando rapidamente para o chão, com um olhar envergonhado de um garoto de 10 anos.

Foi a troca mais bem feita da minha 4ª série. De resto, eu só trocava papéis de carta com cheirinho de flores e frutas.

E foi o cheiro que mais uma vez me fez trocar. Na primeira dança, mãos suadas, nos abraçamos para dar os primeiros passos juntos. Meu coração saltava tanto que tinha medo dele perceber.

Foi então que senti aquele cheirinho gostoso que vinha da sua jaqueta de nylon azul.
Semanas de ensaios, algumas trocas de palavras, naquela época não tinha nem celular, nem msn e nem coragem para pedir o telefone. Só o cheirinho de talco Johnson do seu pescoço.

Chegou o sábado. Ansiosa, mal dormi naquela madrugada esperando o tal sábado da apresentação chegar. Dia ensolarado, vestido amarelo rodado e um blush com aquelas pintinhas pretas que diziam ser ‘charme’ (charme pra mim é o Vin Diesel).

Percorrendo os olhos por todo o pátio do Colégio, nos procurávamos como duas crianças perdidas num parquinho. Enfim, nossos olhares se encontraram (este post está muito romântico).

- “Eu estava te procurando”, disse ele, ansioso.
- “Eu também”, respondi com um ar feliz.

Nisso, corri com ele até minha mãe, que tirou um filme de 36 poses (é, eu sou do tempo do filme de poses), todas de nós dois. Fotos de mãos dadas, abraçadinhos e dançando a quadrilha.

Aquelas poses. Uma lembrança para guardar para sempre e, principalmente, um ótimo PRETEXTO para falar com ele na segunda-feira, terça-feira e outras feiras que estavam por vir. Ou estariam.

Tudo combinado para o nosso próximo encontro. Revelaria o filme e ficaríamos o recreio todo rindo e relembrando aquele sábado.

Enquanto isso, passei o domingo todo com aquele cheiro de talco Johnson no ar.

Chegou a segunda-feira. Ah, que dia mais esperado. Se caísse uma tempestade eu ainda estaria feliz. Era o dia de revelar as 36 poses de nós dois.

Como minha mãe já havia levado o filme para revelar (naquela época não existia nem revelação 1 hora), era chegada a hora de ir buscar.

- “Moça, vim buscar um filme. Aqui está o papelzinho”. Ansiosa, nem sentei para esperar.

Muitos minutos depois, a moça volta com uma expressão não muito agradável.

- “Menina, houve algum problema no seu filme”.
- “Como assim?” Já me exaltando.
- “Seu filme não revelou nenhuma foto”, a moça com cara de quem não apostou seu futuro num filme de 36 poses, me fala.
- “Nenhuma foto? Que história é essa? Esse filme é muito importante. Verifique novamente, por favor,”.

Na verdade, quem resolveu esta história com a ‘atendente tranqüila’ foi minha mãe, por que eu estava em estado de puro choque.

A moça voltou e, se compadecendo com minha cara de ‘a esperança é a última que morre’, me disse calmamente:

- “Querida, o filme estava vencido. Não restou nenhuma foto. O que podemos fazer é lhe dar um novo”.

Por uns instantes não tive reação. Um novo filme? O que eu iria fazer com um novo filme, totalmente em branco? Não poderia reescrever aquela história.

Aquele dia não voltaria mais. O pretexto para falar com o moço da jaqueta de nylon azul estava com a data de validade vencida.

A única lembrança que me restou foi o cheiro daquele talco Johnson da sua jaqueta de nylon azul.

Mireille Almeida em campanha para a Johnson nunca parar de fabricar boas lembranças.